Saturday, August 1, 2015

Como vim parar aqui?

Por onde começar a escrever?

Talvez pelo começo: Por que vim viver no Canadá.

O Canadá sempre foi um sonho totalmente irracional meu. Digo irracional porque lá pelos 18 anos, eu dizia para todo canto que iria um dia morar no Canadá onde eu teria uma pousada. A brincadeira era conhecida entre amigos, que riam do absurdo da coisa, inclusive eu. Dizia que moraria no meio de muita neve, perto de um lago e me via casada e com filhos neste lugar verde e lindo. O sonho, acredito eu, foi plantado no dia que ouvi do Zaca, um amigo de colégio, que sua irmã Selma tinha emigrado para o Canadá e que o Canadá tinha as portas abertas. Isso em 1987, por aí. Pode parecer bobagem, mas desde meus 14 anos que eu sabia que não moraria no Brasil e estudava com muito afinco o inglês, o francês e espanhol porque sabia que teria que falar línguas e bem. Com 16 anos fiz intercâmbio nos EUA o que me deixou fluente em inglês.

Eu sabia; trazemos dentro de nos uma estranha sabedoria sobre as coisas e há coisas que a gente não sabe explicar. Eu sempre soube que não ficaria no Brasil. Venho de uma linhagem familiar paterna que migram como pássaros, talvez esteja no sangue. Meus pais amam o Brasil e particularmente nunca incentivaram estes movimentos nos filhos.

A vida da gente seria bem mais fácil se aceitássemos o que sabemos dentro da alma. Mas eu lutei muito contra. E achei bobagem esta cisma com o Canadá e fui parar na Austrália, país que nunca tive vontade de morar, mas o amor me levou até lá, onde morei por 8 anos, tive experiências incríveis, pude conhecer o sudeste asiático e ter acesso ao Budismo, pude me apaixonar pela Tailândia, pelo Laos e pelo Camboja, pude nadar das águas cristalinas de Fiji, pude estudar na universidade dos meus sonhos, pude seguir o meu coração e mudar de profissão e virar fotógrafa e consegui fazer parte da agência de fotografias da qual tanto sonhava participar. Sim, o processo foi muito doloroso, difícil e caro para a alma. Eu simplesmente tinha uma qualidade de vida excelente mas me sentia uma escrava da minha vida árdua, com pouca grana e tendo que ralar muito, mas muito mesmo para ter a tal qualidade de vida. Olhando pra trás, hoje penso que estava plantando sementes ali, e não foi fácil, mas foi necessário. E sou grata por isso e por ter tido estamina para aguentar o tranco.

A Austrália nunca foi minha escolha. Eu me sentia isolada geograficamente, isolada de amor e de amigos, mesmo cercada de gente. Tomei a difícil decisão de voltar ao Brasil, o que parecia uma loucura pra todo mundo que vivia ao meu lado em Melbourne. Hoje sei que viver seguindo o coração é a única maneira de se viver bem. Que todas as minhas decisões de vida tomadas pelo racional sempre me iludiram e me fizeram infeliz.

Retorno ao Brasil em 2008. Foi duro me readaptar. Já não tinha mais os mesmos amigos, a vida tinha seguido pros que ficaram e eu já não era mais a mesma. Os valores da gente mudam muito quando nos integramos em outra sociedade e os 2 primeiros anos foram bem difíceis. Mesmo assim ainda pude contar com poucos amigos, aqueles que me amam com todas as mudanças e em todas as fases. E sou grata por eles, meus maiores tesouros. Fiquei muito perdida e com um sentimento de "sem terra". Pensei em pedir o visto para o Canada, da Austrália, mas era melhor fazer este processo do Brasil, como brasileira. Sim, porque a essas alturas eu ja tinha me tornado cidadã australiana também.

E como contar aos amigos e a família que tinha planos de ir pra outro lugar? Na verdade eu quis muito ficar no Rio. Quis mesmo. E passei os próximos 3 anos em uma lua de mel grande com a cidade, que estava pacificada com as UPP's, que tinha ganho de outras cidades para hospedar a Copa e as Olimpíadas, eu acreditava que tudo seria diferente e sempre para melhor. Eu amo o Rio de Janeiro e de todas as cidades que conheço no mundo - e que não são poucas - acho o Rio deslumbrante de bonito. Mas o Rio é igual `aquela mulher linda que acha que sua beleza basta. O Rio vive há anos com a desculpa de ser a cidade maravilhosa (e é!) porém péssima, falida, suja, e mal tratada. Neglicenciada em saúde, lazer e educação. Eu adoro a ginga, o lado safo do carioca, as praias e amo poder ficar com minha família e estar junto das raízes de infância e de vida. Mas a falta de profissionalismo e de serviços me alucinava.

Não consegui trabalho com nenhuma agência brasileira, tudo parecia cair no quesito de quem eu conhecia e eu nunca tinha feito parte do mercado de fotografia na cidade. Meu equipamento era de ponta e as vezes melhor do que os empregados, que se sentiam intimidados com minha formação e me davam as costas. Ou recebia propostas de trabalho perigosas, ser fotojornalista em favelas e ganhar pouco mais de 2 mil Reais não era a aventura que queria ter.mesmo assim trabalhei bastante para decoradores e arquitetos, fotografando seus projetos de interiores, atividade que exerço até hoje.

Fui fazer a outra coisa que mais gosto: receber pessoas. Desta vez sendo remunerada por isso. Comecei com um serviço informal de hospedagem no Rio e como eu sabia do que os estrangeiros gostam e de como eles pensam, logo o serviço pegou. Pegou tanto que fui capa do Morar Bem do Jornal O Globo, dei entrevista no Sem Censura e logo ja estava administrando vários apartamentos de temporada para clientes diversos. E não queria crescer mais. ter uma imobiliária nunca foi meu sonho então entendi que faria aquilo enquanto fosse bom para mim. Conhecia pessoas incríveis,e arrumei alguns trabalhos com agências de fotografia de fora. Foi um período bom.

Mas debaixo dos panos, dei entrada no meu processo de imigração para o Canada e dividi isto com poucos. Após 3 anos, o visto saiu e fechei o meu capítulo no Rio de Janeiro e vim viver meu sonho, minha loucura, pois a vida é curta e nunca é tarde para se fazer o que se sonha. Cheguei no Canadá com 42 anos, morei em Toronto e em Quebec City e estou a busca da cidade onde irei ficar e apesar de ainda estar tudo incerto, eu amo este país! Eu não estava errada. Eu agradeço ao universo por ter me concedido a oportunidade de vir para cá, mesmo que tardiamente. Sim, penso isso, mas há quem diga que tudo acontece por um motivo. Talvez eu precisasse passar por tudo o que eu passei para chegar até aqui.

Eu gosto do Canadá por tantos motivos. Eu gosto dos canadenses, também.

Vou descrevendo aqui minhas vivências em Montreal e as curiosidades do meu dia a dia.Este é o meu diário para que nada se perca.